Vacina contra a gripe reduz em até 20% o risco de morte e internações em pessoas que tiveram AVC, mostra estudo
- há 4 dias
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A administração de duas doses da vacina contra influenza durante a internação hospitalar pode reduzir em até 20% o risco de morte e de novas hospitalizações por complicações cardiovasculares e cardiorrespiratórias em pacientes com histórico de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Os dados emergem de um ensaio clínico conduzido pelo Hospital Israelita Albert Einstein no âmbito do Proadi-SUS, programa do Ministério da Saúde em parceria com hospitais filantrópicos de referência, publicado no International Journal of Stroke, periódico oficial da Organização Mundial do AVC.
O estudo recrutou 1.801 pacientes internados por síndrome coronariana aguda (SCA) entre 2019 e 2022, distribuídos em 30 centros de pesquisa nas regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, com 90% dos participantes sendo usuários do SUS. O desfecho primário avaliava a segurança da vacinação anti-influenza ainda na fase hospitalar. Dentro dessa população, 67 indivíduos tinham histórico prévio de AVC, um subgrupo clinicamente relevante dado o perfil de risco aumentado para novos eventos cerebrovasculares e cardiovasculares.
Os participantes foram alocados em dois grupos: um recebeu duas aplicações da vacina durante a internação e o outro recebeu dose padrão única cerca de 30 dias após a alta. Todos foram acompanhados por 12 meses. No subgrupo com histórico de AVC, aqueles que receberam a imunização intra-hospitalar dupla apresentaram redução significativa na incidência de óbito e reinternação em comparação ao grupo vacinado ambulatorialmente no pós-alta. Nos pacientes sem histórico de AVC, não houve diferença estatisticamente relevante entre as duas estratégias. Os pesquisadores ressalvam, contudo, que o tamanho amostral do subgrupo foi limitado e que estudos maiores e dedicados a essa população são necessários para confirmação e estratificação dos achados por subtipo de AVC (isquêmico vs. hemorrágico).
Do ponto de vista fisiopatológico, a relação entre infecção pelo vírus Influenza e eventos cardiovasculares é bem estabelecida na literatura. A infecção desencadeia uma resposta inflamatória sistêmica com liberação de citocinas pró-inflamatórias, incluindo IL-6, TNF-α e proteína C reativa, que promovem disfunção endotelial, ativação plaquetária e estado de hipercoagulabilidade. Estudos experimentais demonstram que a infecção pelo vírus influenza aumenta o tamanho do infarto cerebral por mecanismo inflamatório, com liberação de citocinas pelo trato respiratório que induzem mediadores inflamatórios adicionais no cérebro isquêmico, aumento de neutrófilos expressando MMP-9 na região isquêmica e comprometimento da barreira hematoencefálica. Em pacientes que já sofreram AVC, esse cenário é ainda mais crítico, pois a resposta imunológica basal já se encontra comprometida, amplificando o risco de novos eventos.
Uma metanálise envolvendo oito ensaios clínicos com mais de 14.000 pacientes demonstrou que a vacinação anti-influenza, comparada ao cuidado padrão, resultou em risco 25% menor de eventos cardiovasculares adversos maiores, redução comparável à obtida com estatinas e abandono do tabagismo. Esses dados reforçam o potencial clínico da imunização como estratégia de prevenção secundária em cardiologia e neurologia, e tornam o achado do estudo brasileiro coerente com a literatura internacional, ainda que a janela intra-hospitalar como momento da vacinação seja inovadora do ponto de vista assistencial.
Um estudo paralelo publicado na Eurosurveillance, com 1.221 adultos acima de 40 anos na Dinamarca, corrobora esses resultados: após diagnóstico positivo para gripe, o risco de internação triplicou para AVC e quintuplicou para infarto na semana subsequente; entre os vacinados que ainda assim se infectaram, esse aumento de risco foi reduzido pela metade.
Para o farmacêutico hospitalar e clínico, os dados trazem uma implicação direta: a internação por SCA representa uma oportunidade concreta de ampliar a cobertura vacinal em pacientes de alto risco que, após a alta, frequentemente não retornam para receber o imunizante. Henrique Fonseca, líder do Núcleo de Estudos Clínicos em Imunologia e Vacinas da ARO-Einstein e autor sênior do estudo, sinaliza ainda a necessidade de avaliar o papel das vacinas de alta dose, com até quatro vezes a concentração antigênica da formulação padrão, nesse perfil de paciente, dado o acúmulo de evidências indicando maior benefício clínico em populações idosas e imunologicamente mais vulneráveis.
As diretrizes clínicas atuais recomendam a vacina contra influenza para pacientes com doença cardiovascular, mas não fazem recomendação específica para pacientes com doença cerebrovascular, uma lacuna que estudos como este, conduzidos no contexto real do SUS, têm o potencial de endereçar diretamente nas próximas atualizações de protocolo. ✨ Invista no seu futuro com a nossa instituição de ensino!
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